O Ministério da Fazenda apura 14 empresas de apostas e jogos online por suspeita de subdeclaração de receita, com foco na dedução de bônus promocionais da base de cálculo — e, no caso da Blaze, a diferença estimada chega a R$ 96,1 milhões entre tributos e repasses obrigatórios, segundo reportagem do UOL/Folha C-Level reproduzida pelo Yogonet Brasil em 13 de outubro.
O recado para quem está desmobilizando operação é direto: a fiscalização olha para trás. A apuração trata de receita declarada durante o período regulado, quando a Lei 14.790/2023 e a regulamentação da SPA/MF já estavam em vigor. O fim da operação legal não interrompe o exame de exercícios encerrados.
O que está em disputa na conta
A controvérsia é técnica e conhecida de quem fecha balanço no setor: a receita bruta de apostas admite dedução apenas de bônus disponíveis para saque sem exigência adicional. Benefício de uso restrito na plataforma, condicionado a apostar determinado número de vezes, deveria ser lançado como despesa de marketing — e não abatido da base de apuração do GGR e dos repasses.
Nos números atribuídos à reportagem de origem, a Blaze declarou faturamento de aproximadamente R$ 1,9 bilhão e deduziu R$ 477,3 milhões classificados como "bônus sacáveis", reduzindo a receita informada a cerca de R$ 1,43 bilhão. Material promocional da própria empresa, de maio de 2025, citava exigência de rollover de até cerca de 35 vezes o valor concedido.
| Rubrica | Valor estimado |
|---|---|
| Repasses a finalidades sociais | cerca de R$ 57 milhões |
| Cofins | R$ 31,9 milhões |
| PIS | R$ 6,9 milhões |
| Total estimado | até R$ 96,1 milhões |
Os valores são estimativas atribuídas à apuração jornalística, não dívida constituída. Os procedimentos administrativos estão sob sigilo e, até o fechamento desta edição, não havia decisão publicada, auto de infração divulgado ou crédito definitivamente lançado. A informação de que as penalidades no setor poderiam chegar a R$ 2 bilhões é atribuída à SPA, sem metodologia divulgada — não serve como projeção de multa.
O que não foi confirmado
- Os nomes das 14 empresas apuradas. Além da Blaze, a reportagem cita a RR Participações, ligada às marcas MultiBet e Ricobet.
- Se a apuração é conduzida pela Receita Federal, pela SPA ou por ambas, e qual portaria ou instrução normativa foi invocada.
- O número dos processos e se há auto de infração lavrado contra qualquer das empresas.
- Se a extinção das outorgas altera o rito de cobrança ou a competência para executar eventuais créditos.
Em nota reproduzida pelo Yogonet Brasil, a Foggo Entertainment, responsável pela exploração da marca Blaze no Brasil, afirma seguir as normas aplicáveis ao setor, declara que suas demonstrações financeiras seguem orientação das autoridades e diz estar à disposição dos órgãos competentes. Não houve declaração nominal de autoridade da SPA/MF sobre o caso.
O bônus virou um fato fiscal
Para marketing e CRM, a leitura é incômoda: o desenho da campanha — com ou sem exigência de aposta mínima antes do saque — deixou de ser escolha de canal e passou a determinar a classificação contábil. É a mesma lógica que já apareceu na discussão sobre saldo de bônus na restituição, agora aplicada a exercícios fechados.
O que fazer nos próximos dias
- Refazer a conciliação de bônus por exercício, separando o sacável sem condição do que exigia rollover, e confrontar com o que foi efetivamente deduzido.
- Preservar evidência antes de desligar plataforma e data warehouse: termos e condições versionados, regras de rollover, extratos de concessão e de saque.
- Reclassificar como despesa de marketing o que não atendia ao critério e dimensionar a diferença em PIS, Cofins e repasses sociais.
- Avaliar denúncia espontânea com o jurídico tributário antes de qualquer lançamento de ofício.
- Registrar a contingência no balanço e nos contratos de M&A em negociação.
O item de preservação de prova colide com o cronograma de desmobilização em curso em boa parte do mercado. Quem já definiu o que desligar e quando na plataforma de apostas precisa revisar o plano: base promocional e logs de bônus deixam de ser dado descartável. Sem eles, não há defesa administrativa possível.
Prazo vivo é o do Congresso
Não há prazo público nesta apuração. O relógio que corre é legislativo: o período de emendas à MP 1.384/2026, que proibiu as bets e extinguiu as outorgas, encerrou-se em 13 de outubro, e a medida segue sem relator definido. A designação do relator e o calendário de votação definem o resto do trimestre.
Para quem avalia compra de ativos ou de crédito contra a União de bets sem outorga, a apuração acrescenta um passivo contingente que não estava no modelo. O ponto não é o valor de hoje, que ninguém conhece, mas o fato de a base de cálculo de GGR dos últimos exercícios estar aberta a revisão.
No mesmo 13 de outubro, a Operação Disque 151, da Polícia Civil de São Paulo, cumpriu nove mandados entre prisões e buscas em São Paulo e Mogi das Cruzes contra apostas clandestinas, segundo a Agência SP. A Agência Brasil informou três presos e bloqueio judicial autorizado de até R$ 154 milhões. São frentes distintas — uma fiscal e administrativa, outra criminal —, mas o conjunto indica que a atenção do Estado ao setor não diminuiu com o fim da operação legal.
Sua conciliação de bônus está de pé?
Antes de desligar a plataforma, confira se os termos de rollover, os logs de concessão e os extratos de saque continuarão acessíveis — e acompanhe no iGBRASIL o desdobramento da apuração das 14 empresas. Para receber a análise do que muda para operadores, assine a newsletter do iGBRASIL.